Na edição #011, três semanas atrás, eu reclamei aqui: cadê o Mythos, Anthropic? O modelo lendário que a empresa prometia e nunca entregava.

Ele chegou. No dia 9 de junho a Anthropic lançou o Claude Fable 5 e o Claude Mythos 5, a primeira geração que ela chama de "Mythos-class", uma categoria que ela mesma posiciona acima do Opus. O Fable 5 passou três dias no topo de todos os rankings, batendo o GPT-5.5 em quase tudo. O modelo mais capaz já liberado ao público.

Aí, na sexta à noite, o governo dos Estados Unidos mandou a Anthropic cortar o acesso. Mundo inteiro, dentro e fora dos EUA. Inclusive os próprios funcionários da empresa. Motivo oficial: segurança nacional.

O modelo mais poderoso da história ficou no ar por três dias. Depois alguém apertou o botão de desligar.

Nesta edição:

  • O Mythos finalmente chegou (e o que "Mythos-class" significa)

  • As capacidades: três dias como o modelo mais forte do mundo

  • A revogação: o dia em que um governo desligou uma IA de fronteira

  • Notícias rápidas

  • Opinião do Mateus

O Mythos finalmente chegou

Há três semanas eu reclamei nesta newsletter que a Anthropic vivia prometendo um modelo chamado Mythos e nunca entregava. No dia 9 de junho ela entregou dois de uma vez.

Saíram o Claude Fable 5 e o Claude Mythos 5. A empresa criou uma categoria nova pra eles, a "Mythos-class", um nível que ela posiciona acima do Opus, que até semana passada era o topo da linha. Nas palavras da própria Anthropic, "modelos Mythos-class são uma classe de modelos Claude que fica acima da nossa classe Opus em capacidade".

O detalhe que pouca gente entendeu: os dois são o mesmo modelo por baixo. A diferença está nas travas.

O Fable 5 é a versão pública. Ele vem com três classificadores de segurança que, quando detectam um pedido sensível, jogam a resposta de volta pro Opus 4.8, o modelo da geração anterior. Os três gatilhos são: cibersegurança ofensiva (criar exploit, atacar sistema), biologia e química de uso duplo, e tentativa de destilar o modelo (copiar o comportamento dele pra treinar outro). Segundo a empresa, essas travas disparam em menos de 5% das sessões. No modo bloqueado de cibersegurança ofensiva, o Fable 5 entrega literalmente 0% de progresso. Ele se recusa.

O Mythos 5 é esse mesmo modelo com as travas removidas em alguns domínios. Ele não é vendido pra ninguém na rua. A Anthropic liberou ele só dentro do Project Glasswing, um programa fechado pra defensores de cibersegurança e operadores de infraestrutura crítica, com planos de expandir pra cerca de 150 organizações em mais de 15 países. A empresa afirma que o Mythos 5 tem "as capacidades de cibersegurança mais fortes de qualquer modelo do mundo".

A lógica desse racha é estratégica, e vale entender. A Anthropic queria entregar o poder de fronteira pra quem defende rede e pesquisa remédio, sem dar a mesma capacidade pra qualquer pessoa montar um exploit ou estudar uma arma biológica. Por isso os modelos Mythos-class guardam os dados de entrada por 30 dias pra auditoria, e o acesso ao Mythos 5 fora do Glasswing depende de um programa de confiança que ainda vai abrir, com fila separada pra organizações de cibersegurança verificadas e pesquisadores biomédicos. A ironia é que essa cautela toda não foi suficiente. Quem desligou o modelo não achou que ela bastava.

O preço também mudou de patamar. O Fable 5 custa US$ 10 por milhão de tokens de entrada e US$ 50 de saída. É o dobro do Opus 4.8 (US$ 5 / US$ 25), com desconto de até 90% no input via prompt caching e um multiplicador de 1,1x pra inferência rodada só nos EUA. A própria Anthropic admitiu o posicionamento: "tier premium, não um upgrade ao mesmo preço". Pra suavizar, ela liberou o Fable 5 de graça nos planos Pro, Max, Team e Enterprise, mas só até 22 de junho. Depois disso, passa a consumir créditos.

Guarda essa data: 22 de junho. Porque o que aconteceu três dias depois do lançamento fez ela virar piada.

As capacidades: três dias como o modelo mais forte do mundo

Por três dias, o Fable 5 foi o modelo de IA mais capaz já liberado pro público. Os números não deixaram dúvida.

Ele assumiu o primeiro lugar do Chatbot Arena, o ranking onde gente de verdade vota qual modelo responde melhor numa disputa cega. O GPT-5.5, da OpenAI, ficou em quarto.

Em código, que é onde isso vira dinheiro pra quem opera, a distância foi quase indecente. Olha a tabela do principal benchmark de engenharia de software, o SWE-Bench Pro:

Modelo

SWE-Bench Pro

Claude Fable 5

80,3%

Claude Opus 4.8

69,2%

GPT-5.5 (OpenAI)

58,6%

Gemini 3.1 Pro (Google)

54,2%

São 22 pontos entre o Fable 5 e o GPT-5.5. No SWE-Bench Verified, outra régua de código, o Fable 5 chegou a 95%. No Code Arena, a medição por Elo, marcou 1.665 contra 1.501 do GPT-5.5.

Tem um benchmark que resume o salto. O FrontierCode Diamond, que mede problemas de código realmente difíceis: Fable 5 em 29,3%, Opus 4.8 em 13,4%, GPT-5.5 em apenas 5,7%. O Fable 5 resolveu cinco vezes mais que o melhor concorrente.

E não é só código. No GDP.pdf, um teste de visão sem ferramentas (interpretar documento e imagem), o Fable 5 fez 29,8% contra 24,9% do GPT-5.5, 22,5% do Opus 4.8 e 16,7% do Gemini 3.1 Pro. A Stripe, que testou o modelo antes do lançamento, disse que ele "comprimiu meses de engenharia em dias". A própria Anthropic afirmou que a capacidade do Fable 5 "superou a de qualquer modelo que já disponibilizamos de forma geral".

Tem um padrão que importa mais que qualquer número solto: quanto mais cara e longa a tarefa, mais o Fable 5 abria distância. Em trabalho agêntico, onde o modelo encadeia dezenas de passos sozinho sem você no meio, a vantagem dele sobre o Opus 4.8 e o GPT-5.5 crescia conforme o custo da tarefa subia. Isso é o oposto do que costuma acontecer, onde modelo bom em pergunta curta degrada em missão longa. E ele segurava esse fôlego com janela de contexto na casa dos milhões de tokens, o suficiente pra carregar um repositório inteiro de uma vez e ainda raciocinar em cima.

O irmão restrito vai ainda mais longe nas áreas perigosas. No ExploitBench, de cibersegurança, o Mythos 5 fez 78% contra 40% do Opus 4.8 e 34% do GPT-5.5. No BioMysteryBench, de biologia difícil, fez 46,1%. São justamente essas capacidades que o governo decidiu que ninguém de fora pode tocar.

A revogação: um governo desligou uma IA de fronteira

A Anthropic registrou a hora exata. Sexta-feira, 12 de junho, 17h21 no horário de Brasília-Nova York (ET). Foi quando chegou a carta do governo dos Estados Unidos: uma export control directive mandando suspender todo acesso ao Fable 5 e ao Mythos 5 por "qualquer cidadão estrangeiro, dentro ou fora dos Estados Unidos, incluindo funcionários estrangeiros da Anthropic".

Leia de novo a última parte. A ordem incluiu os próprios funcionários da empresa. Pra cumprir, a Anthropic cortou o acesso aos dois modelos por completo. Restou um consolo na nota oficial: "o acesso a todos os outros modelos da Anthropic não será afetado". Ou seja, o Opus 4.8 e os anteriores continuaram no ar. Só os dois mais poderosos caíram.

O motivo oficial foi segurança nacional, ligada a um jailbreak. A versão de como se chegou nesse ponto depende de quem conta, e aqui a história fica boa.

Versão 1, do governo. David Sacks, conselheiro de IA da Casa Branca, contou no X: um "parceiro confiável altamente credível, tanto da Anthropic quanto do governo americano, que estava testando o Fable, apareceu com um jailbreak das travas". O governo pediu pra Dario Amodei, CEO da Anthropic, ou consertar a falha ou tirar o modelo do ar. Segundo Sacks, "o Dario se recusou".

Versão 2, do bastidor. A TechCrunch, junto com WSJ, Reuters e The Information, apontou quem seria esse parceiro: Andy Jassy, CEO da Amazon. Jassy teria avisado o secretário do Tesouro, Scott Bessent, que pesquisadores da própria Amazon usaram o Fable 5 pra "obter informação que poderia ser usada em ciberataques".

E aqui está o nó que ninguém deveria deixar passar. A Amazon é a maior investidora da Anthropic. Ela já colocou US$ 8 bilhões e anunciou em abril mais US$ 25 bilhões, segurando algo entre 16% e 18% da empresa, uma fatia que vale entre US$ 135 e US$ 160 bilhões. O sócio que mais botou dinheiro na Anthropic é o mesmo que teria reportado o modelo dela pro governo.

A defesa da Anthropic foi pública e dura. A empresa disse que "discorda que a descoberta de um jailbreak potencial e estreito seja motivo pra recolher um modelo comercial usado por centenas de milhões de pessoas", e que a ação do governo "não segue os princípios" de transparência e decisão baseada em fato técnico. O argumento técnico dela: a vulnerabilidade era "menor, publicamente conhecida, e alcançável também pelo GPT-5.5". Mesmo discordando, cumpriu: desligou os dois modelos no mundo todo. Sem prazo de volta. Sem falar em reembolso.

A Politico reconstruiu as 24 horas de ligações tensas entre Amodei e o governo que terminaram nesse controle de exportação. E tem um detalhe que define a coisa toda, segundo a The Information: a Casa Branca não pretende estender a restrição pra nenhuma outra empresa de IA. A mira foi cirúrgica. Só na Anthropic.

Vale parar num ponto técnico que é histórico. Controle de exportação nos EUA sempre foi ferramenta pra chip: impedir que hardware avançado da Nvidia chegasse na China. Essa foi a primeira vez que a mesma máquina jurídica foi apontada pra um modelo de IA, pro software, pro acesso a um serviço online. E foi usada de forma tão larga que travou até o login dos próprios engenheiros estrangeiros da Anthropic dentro dos Estados Unidos. Não existe manual pra isso. O governo escreveu um na sexta à noite, e o resto da indústria está lendo agora com a respiração presa, porque o que foi feito com a Anthropic pode ser feito com qualquer um.

O estrago já passou da fronteira americana. Na Índia, o episódio reacendeu o debate sobre construir o futuro do país em cima de tecnologia que um governo estrangeiro pode desligar. Quando o melhor modelo do mundo some por decisão de uma só Casa Branca, toda empresa e todo país que construiu em cima dele descobre, no susto, que nunca esteve no controle.

Notícias rápidas

A Meta começou a desfazer a compra de US$ 2 bilhões da Manus depois que Pequim mandou. A TechCrunch reportou que a Meta está desmontando a aquisição da Manus, a empresa de agentes de IA, após o governo chinês ordenar a reversão do negócio. É o outro lado da mesma moeda da semana. Se nos EUA o governo desliga modelo por segurança nacional, na China ele desfaz aquisição bilionária por decreto. IA virou assunto de Estado nos dois maiores mercados do planeta. TechCrunch

A Anthropic levou o corte às vésperas do IPO. A empresa vale hoje cerca de US$ 965 bilhões e já entrou com pedido de abertura de capital, depois de fechar em maio uma rodada de US$ 30 bilhões (contei isso na #010). O timing é cruel: o golpe regulatório mais duro da história dela caiu bem na hora em que ela precisa mostrar previsibilidade pro mercado. E ela ainda carrega o compromisso de gastar mais de US$ 100 bilhões em nuvem da AWS na próxima década, da mesma Amazon que aparece no centro dessa confusão. Fortune

A OpenAI virou alvo de investigação de procuradores estaduais nos EUA. Um grupo de attorneys general abriu investigação sobre a empresa, mirando desde as políticas de anúncio até o tratamento dos dados de saúde dos usuários. Ainda não se sabe quais estados estão envolvidos. Fica o alerta direto: se você usa IA com dado sensível de cliente, a régua regulatória está subindo rápido. TechCrunch

A Europa tratou o caso Anthropic como um alarme. Depois do corte, figuras políticas europeias classificaram o episódio como um "wake-up call" sobre o risco de depender dos EUA pra tecnologia de IA. O continente que já discute soberania digital há anos ganhou o exemplo mais concreto possível: o melhor modelo do mundo, desligado do dia pra noite por um governo que não é o seu. Euronews / AP

Eu testei o Fablo por 3 Dias e aqui está o resultado

Eu testei o Fable 5 durante os três dias em que ele ainda estava online. Usei pra criar scripts, micro-serviços, rotinas automatizadas (pra mim, rotinas automatizadas são a coisa mais importante que você pode ter na era da IA. Eu ensino exatamente isso dentro do Intensivo Claude Code. Aperta aqui e vem aprender o quanto antes), copies e páginas.

Abaixo eu deixo alguns prints dos resultados visuais da ferramenta. Depois disso, explico melhor as capacidades de raciocínio.

Print: Calculadora de Funil Feita com o Fable 5

Print: Documento de Apresentação Gerado pelo Fable 5

Print: PDF de explicação do N8N + ChatFunnel gerado pelo Fable 5

Sobre raciocínio, inteligência e capacidade

Na escrita (copy, cartas de vendas, scripts de vendas) eu não vi grande mudança. O modelo parece seguir os mesmos padrões de IA dos outros. Inclusive, eu montei um documento mapeando os principais padrões de escrita de IA, pra você removê-los dos textos gerados e deixar seus outputs menos "IAtizados".

No raciocínio pra resolver problemas complexos de programação, aí a história muda.

Há exatamente um ano, eu usei o modelo da Anthropic pra construir os blocos do n8n para o ChatFunnel. Levei cerca de uma semana, não terminei, não ficou bom, e os poucos que consegui fazer vieram com bugs. A gente usou desse jeito mesmo por um ano inteiro.

Essa semana, com um único comando, eu deleguei pro novo modelo a tarefa de reescrever esses blocos de ponta a ponta.

O resultado: ele não só fez 100% da tarefa com um comando, como entregou melhor do que qualquer programador do meu time poderia esperar. Esses blocos já estão disponíveis pra você usar, se você for meu cliente no ChatFunnel.

Outra coisa que achei excelente foi a capacidade desse modelo de gerar documentos personalizados. Ele é muito bom em organizar de forma lógica material denso: ebooks, livros, conteúdo de cursos e aulas e conteúdo em geral.

Meu veredito

É um modelo conciso, que entrega muito com uma baixa taxa de erro. Ele tem capacidade de acelerar em pelo menos 3 a 4x o desenvolvimento de softwares e micro-softwares, gera material com grande assertividade e cumpre tarefas complexas com poucos prompts.

Qual é o ponto aqui: é uma grande melhoria em relação aos modelos anteriores. Dá pra dizer que o que já é feito hoje com o Opus vai poder ser feito ainda melhor com o Fable.

É algo revolucionário? A resposta é não.

Se você não sabe usar os modelos atuais e extrair o máximo potencial do que eles já oferecem, o modelo novo não vai fazer diferença nenhuma pra você.

Abraços! Mateus Dias

PS: Você chegou a usar o modelo? Compartilha sua opinião comigo respondendo esse e-mail. Prometo ler todos. Valeuuu!

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