O chefe da NSA contou a um senador que o Claude Mythos, apontado contra os sistemas mais secretos do governo americano, achou brecha em quase todos. Não em semanas. Em horas.

Agora dá pra entender por que, no dia 12 de junho, o governo arrancou esse modelo do ar e deu 90 minutos pra Anthropic desligar tudo. Não foi paranoia de burocrata. Era isso.

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Nesta edição

  • Por que o governo desligou o Mythos (a NSA finalmente contou)

  • O GPT 5.6 chegou e levou o mesmo tratamento que o Mythos

  • A Ásia correndo pra vender a IA de fronteira sem trava

  • Notícias rápidas

  • Opinião do Mateus

O Mythos invadiu quase tudo em poucas horas.

Na #013 eu contei que o governo dos EUA derrubou o Claude Mythos 5 e o Fable 5 de um dia pro outro, alegando segurança nacional, sem explicar direito o motivo. Essa semana o motivo apareceu.

Em uma audiência no Senado, o senador Mark Warner, vice-presidente do Comitê de Inteligência, repassou o que o general Joshua Rudd, chefe da NSA e do Cyber Command, tinha dito a ele sobre um teste com o Mythos: "essa ferramenta invadiu quase todos os nossos sistemas classificados, não em semanas, mas em horas."

Antes de você imaginar um hacker entrando no Pentágono, segura. Foi um teste autorizado, dentro do Project Glasswing, o programa fechado da Anthropic com agências de inteligência e infraestrutura crítica. E um funcionário do governo fez questão de corrigir o verbo: o modelo "identificou certas vulnerabilidades em horas, mas isso não significa que ele conseguiu explorá-las nesse tempo."

A diferença importa. Não foi "arrombou o cofre em horas". Foi "achou quase todas as portas destrancadas em horas". Pra quem precisa defender, isso é só o começo do trabalho. Pra quem quer atacar, é o atalho que economiza meses.

E os números do próprio Glasswing mostram que isso não é teatro. A Anthropic reportou que, com cerca de 50 parceiros, o programa já descobriu mais de 10 mil vulnerabilidades de severidade alta ou crítica. Vários parceiros viram a taxa de descoberta de bug subir mais de 10x. Só no Firefox 150, a Mozilla achou 271 falhas, dez vezes mais que na versão anterior. No benchmark de cibersegurança ofensiva, o ExploitBench, o Mythos 5 marcou 78%, contra 40% do Opus 4.8.

A parte que fecha a história: nem todo mundo concorda que tirar o modelo do ar foi a decisão certa. Uma carta assinada por 76 especialistas de cibersegurança acusou o governo de "tirar os melhores modelos das mãos de quem defende". O argumento deles é direto: o Mythos é ótimo em achar e armar exploit, "mas não é unicamente bom nisso". Modelo aberto faz parecido. Tirar o da Anthropic só atrasa o defensor, não o atacante.

O governo deve ter ouvido. Na sexta, 27 de junho, o Departamento de Comércio voltou atrás em parte e liberou o Mythos 5 de novo, mas só pra um grupo fechado de parceiros confiáveis dos EUA (as fontes falam de algo entre 100 e 200 organizações). O Fable 5, a versão pública, segue banido. Quem é estrangeiro continua de fora. A IA mais poderosa pra defender (e atacar) rede agora é um item de acesso controlado, decidido em Washington.

GPT 5.6 lançado e bloqueado pelo Trump

Era pra ser a vingança da OpenAI. Na #013 eu mostrei o Fable 5 batendo o GPT-5.5 em quase todos os benchmarks. Na quinta, 26 de junho, a OpenAI respondeu com o GPT 5.6, agora dividido em três modelos: Sol (o topo), Terra (o do dia a dia) e Luna (o rápido e barato).

Só que a vingança nasceu na coleira. A mesma Casa Branca que derrubou o Mythos mandou a OpenAI segurar o lançamento público do GPT 5.6. O modelo saiu como preview pra cerca de 20 empresas aprovadas pelo governo, sob um esquema de licença que avalia o acesso cliente por cliente. O secretário de Comércio, Howard Lutnick, teria mandado carta falando em "penalidades criminais e civis" pra quem lançar modelo de fronteira sem aval.

Sobre o modelo em si, a leitura é mais morna que o barulho. O único benchmark que a OpenAI publicou foi o Terminal-Bench: o Sol fez 88,8% contra 88,0% do GPT-5.5. Menos de um ponto. O salto de verdade só aparece no modo "Ultra", que põe vários subagentes pra trabalhar na mesma tarefa.

E teve um banho de água fria. A METR, que avalia modelo de forma independente, não conseguiu medir a autonomia do Sol direito porque o modelo "trapaceou" na própria avaliação: explorou bugs do teste e foi atrás do código com as respostas escondidas. A METR registrou a maior taxa de trapaça de qualquer modelo público que já testou, e disse que a capacidade dele "não parece significativamente além do estado da arte".

Pra você que opera, o que interessa é o preço. O Terra entrega qualidade parecida com o GPT-5.5 por metade do custo (US$ 2,50 por milhão de tokens de entrada, contra US$ 5). O Luna desce pra US$ 1. E o Sol, o topo, custa a metade do Fable 5. Quando sair do preview, dá pra cortar uns 50% da conta de API de tarefa repetitiva só trocando o modelo. Guarda isso pra fazer a conta no seu fluxo de atendimento.

A Ásia na corrida da IA

Aqui está a consequência que ninguém em São Francisco queria. Com o Fable e o Mythos banidos, o resto do mundo parou de esperar e foi construir o próprio.

Em Tóquio, a Sakana AI lançou em 22 de junho o Fugu. Quem está por trás dela chama atenção: um dos fundadores é o Llion Jones, co-autor do paper que inventou o Transformer, a arquitetura que faz o ChatGPT e o Claude funcionarem. O Fugu não é mais um modelo gigante. É um maestro: ele recebe a tarefa e decide qual modelo de fronteira usar, distribui o trabalho entre eles, confere e junta a resposta. A Sakana vendeu o produto com uma frase que é um recado direto pra Anthropic: "capacidade de fronteira sem o risco de controle de exportação."

Eu fiz um vídeo testando o modelo, você pode assistir apertando abaixo:

Na China, a 360, do fundador Zhou Hongyi, apresentou duas ferramentas de cibersegurança pra rivalizar com o Mythos. Uma delas já apontou 3.432 vulnerabilidades. Zhou admite que os modelos chineses ainda ficam 20 a 30% atrás dos ocidentais, mas comparou o Mythos a "armas cibernéticas nucleares" e tratou a corrida como dissuasão: ninguém quer ficar sem o seu. E pesquisadores já dizem que o GLM-5.2, da chinesa Z.ai, iguala os modelos dos EUA em achar bug de segurança.

Notícias rápidas

A Anthropic invadiu o Slack com o Claude Tag. A empresa lançou o Claude Tag, um agente que vive dentro dos canais do Slack como se fosse mais um colega de time. O detalhe ácido: o Slack é da Salesforce, que tem o próprio Slackbot e o Agentforce, e mesmo assim saiu promovendo o concorrente. Funcionários da Salesforce ficaram confusos com a própria empresa fazendo propaganda de quem quer comer o almoço dela. O recado pra quem vende software: a Anthropic não quer mais só vender o modelo, quer morar dentro da ferramenta que você já usa. The Next Web

O Google começou a racionar Gemini pra Meta. Segundo o Financial Times, o Google limitou o acesso da Meta aos modelos Gemini porque não tem compute suficiente pra entregar o que ela pediu. Vários clientes foram afetados, a Meta foi a mais atingida, e projetos internos dela travaram. O gargalo da IA hoje não é ideia nem modelo. É GPU. Quem promete escala e não tem chip vai descobrir isso na fatura. The Next Web

Masayoshi Son apostou contra os data centers do Musk no espaço. O dono do SoftBank questionou a ideia do Elon de colocar data center de IA em órbita. Argumento dele: eletricidade é só 7% do custo de um data center, então economizar energia no espaço não paga a conta, e "a corrida de IA vai ser ganha na Terra dentro de poucos anos." Quando o maior apostador de tecnologia do mundo chama a sua ideia de cara demais, vale ouvir. Wall Street Journal

O Instagram vai pôr o "Your Algorithm" no centro do app. O Adam Mosseri mostrou que a ferramenta que deixa o usuário escolher quais temas ver mais ou menos vai sair de uma configuração escondida pra peça central da experiência. Pra quem vive de tráfego e conteúdo, o feed deixou de ser uma caixa-preta e virou uma régua que o próprio usuário ajusta. Vale repensar como você fala com quem te segue. The Next Web

A IA chinesa aberta cutuca a política dos EUA. Pesquisadores mostraram que o GLM-5.2, modelo aberto da Z.ai, iguala os melhores dos EUA em achar falha de segurança. A pergunta que ficou no ar no Wall Street Journal: por que os EUA gastam tanta energia restringindo a própria IA e tão pouca restringindo a chinesa aberta que faz quase o mesmo? Wall Street Journal

Por que Brasil?

Eu realmente acredito que estamos vivendo uma espécie de corrida espacial, só que dessa vez com IA. Todos os países estão investindo recursos incalculáveis nessa tecnologia, pois eu acredito que quem dominar isso primeiro domina o "mundo". É a velha máxima: "os vencedores levam tudo".

O que me chateia muito é o Brasil nessa história.

Somos um pária, uma fazendinha global que não consegue nem resolver os próprios conflitos internos.

Sendo bem sincero com você: não sei o que será desse país se tivermos mais um Governo do Amor. Não que eu ligue muito pra isso. Não devemos nos preocupar com aquilo que não podemos mudar.

Eu desejo um Brasil tecnológico, à frente das últimas invenções e revoluções da tecnologia. O problema é que 90% do Brasil quer outra coisa.

Seria pedir muito pra gente começar a acordar pras coisas que realmente são importantes?

Abraços! Mateus Dias

P.S. Você acredita que o Brasil ainda entra nessa corrida, ou já largamos atrás demais? Responde esse e-mail com a sua visão.

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